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Editora Globo: uma aventura editorial nos anos 30 e 40

1999

Elizabeth Wendhausen Rochadel Torresini

Com o intuito de estudar as condições de desenvolvimento e do sucesso empresarial da Editora Globo no contexto do processo de industrialização que ocorreu ao longo do século XX, a autora analisa o excepcional acervo de títulos da editora, reunido entre 1930 e 1940 – quando Henrique Bertaso e Erico Verissimo dirigiam a empresa – que é recuperado em seus números, datas e espécies, evocando as esmeradas traduções de obras estrangeiras e as pioneiras edições de autores nacionais, nas diversas áreas de conhecimento. Elisabeth Torresini demonstra o arrojo dos empreendedores ao desafiar o mercado, na posição desvantajosa do Rio Grande do Sul no país, e construir uma casa editorial em moldes que nada deviam aos europeus e norte-americanos em tecnologia e qualidade cultural.

INTRODUÇÃO

Entre os “novos objetos” da História está o livro. Esta presença deve-se às inúmeras possibilidades que um livro oferece como fonte e objeto de pesquisa, do seu formato e seu valor de marcado, ao conteúdo do texto. O livro pode ser analisado como mercadoria ou signo cultural que transmitem sentidos através da imagem ou do texto.

Avaliar a mercadoria livro supõe fazer levantamento econômico com elaboração de séries, apreciação de circulação, reconstituição de redes e volume de trocas . Por outro lado, tratar do signo cultural pressupõe muitas vezes fazer uma análise do seu conteúdo literário como espelho ou mesmo contraponto de uma época. Assim, através do livro, pode-se pensar numa história dos desejos não consumados, dos possíveis não realizados, das idéias não consumidas presentes nos agrupamentos humanos que ficaram marginais ao sucesso dos fatos .

O presente trabalho não trata do livro-mercadoria, não analisa qualquer conteúdo literário. Dentre as muitas formas que podem ser equacionadas para se fazer História, a escolhida, e que deu origem a esta pesquisa, é a edição de livros. Desta forma, escolheu-se a Editora Globo e a organização do seu fundo editorial, cujo principal acervo foi selecionado, traduzido, composto, impresso e colocado em circulação entre 1930 e 1948. [delimitação temporal]

O interesse pela Editora Globo surgiu durante a leitura de Intelectuais e a classe dirigente no Brasil (1920-1945), de Sergio Miceli. Nessa obra são apresentados os setores de mercado de trabalho que abrigaram os intelectuais brasileiros depois de 1920. São citadas as organizações partidárias, instituições culturais e as frentes de mobilização política e ideológica, o serviço público e, finalmente, o mercado do livro .

Após a leitura do estudo de Miceli, surge a seguinte indagação: como pôde aparecer no Rio Grande do Sul – fora do eixo Rio – São Paulo – uma editora do tamanho e da importância da Editora Globo ainda na década de 1930? Quais as condições suficientes para a sua expansão e as razões desse sucesso empresarial?

Para responder ao questionamento acima apresentado, a presente pesquisa parte da hipótese de que o crescimento da Editora Globo, nas décadas de 1930 e 1940, está associado ao processo de industrialização do Brasil e do Rio Grande do Sul, ao desenvolvimento da industrial cultural brasileira e rio-grandense, ao aumento do número de leitores (indivíduos alfabetizados) e à atividade de escritores, tradutores, ilustradores disponíveis para a editoração.

Partindo da convicção de que mesmo o estudo da história de uma empresa não se esgota sem a sua conexão com uma realidade de maiores dimensões, optou-se, nesse trabalho, por traçar um estudo com os seguintes objetivos de pesquisa:

• analisar o processo de industrialização no Brasil e no Rio Grande do Sul entre os séculos XIX e XX; vinculação da indústria cultural com o processo de industrialização, considerando a produção industrial de livros e a origem da mesma no Brasil;

• identificar o momento da criação e da ampliação da Seção editora da Livraria do Globo, destacar suas principais edições, publicações de revistas e outros bens culturais; fazer um levantamento do número de alfabetizados no Rio Grande do Sul, entre as décadas de 1920 e 1930, dos indivíduos leitores de livros;

• avaliar e analisar as possibilidades que o Rio Grande do Sul oferecia em termos de pessoal capacitado para atender as demandas da editora no que se refere às traduções, ilustrações e toda a sorte de serviços especializados que essa indústria requer;

• analisar a diversificação da produção editorial como forma de atingir grupos diferentes, com distintos interesses, tais como: literatura policial, literatura erudita, literatura infantil, enciclopédias, dicionários, livros técnicos, obras de culinária, manuais de bem-viver, e obras de interesse geral.

Para viabilizar o estudo partiu-se, primeiramente, da leitura e coleta de dados em livros de memórias, biografia, perfis de época e autobiografias. Nestas fontes, procurou-se localizar os escritores gaúchos, suas obras, seus depoimentos, seus itinerários em Porto Alegre, com passagens por livrarias, cafés, jornais, restaurantes e cinemas. Localizou-se o grupo de intelectuais mais próximos dos cafés da Rua da Praia e da Livraria do Globo.

Com o propósito de endossar e fazer acréscimos aos depoimentos existentes nas obras consultadas, realizou-se uma série de entrevistas com José Otávio Bertaso, diretor da Editora Globo. As gravações das entrevistas, feitas em janeiro e julho de 1986, foram indispensáveis à compreensão da importância de alguns dados colhidos até então. Firmou-se, nesse momento, a certeza de que as fontes selecionadas possuíam indicadores para um caminho a ser seguido, devido à riqueza de informações e à capacidade de indicar nomes, datas, detalhes e impressões acerca de uma época.

Ao delimitar o objeto de estudo, o próximo passo foi a reunião de uma literatura crítica sobre o tema industrialização, indústria de livros no rio Grande do Sul e no Brasil e indústria cultural de uma maneira geral.

Alicerçados alguns pressupostos, partiu-se para a coleta de dados em relatórios da presidência do Estado do Rio Grande do Sul, em censos sobre educação e população, em jornais (Correio do Povo, sobretudo) e revistas. Estas se tornaram importantes na medida em que a Globo possuía a Revista do Globo, de onde foram retirados dados relativos aos esquemas de divulgação e comercialização, bem como material para ilustrar o lançamento de determinadas obras. Nos jornais buscou-se avaliar o impacto e a repercussão das inúmeras edições da Globo.

Sem as memórias de Erico Veríssimo este estudo teria outras características. A paciência com que Erico relata a sua vida, e a ligação dele com a atividade intelectual rio-grandense e com a Globo, possibilitaram a inclusão no texto de algumas passagens que seguramente não existem em outras fontes disponíveis. O mesmo pode ser dito de Augusto Meyer e Paulo de Gouvêa, cujos textos de memória – cada um a seu modo – revelam uma afinidade poética com seu tempo e com a Porto Alegre de seus sonhos.

Do Livro de Registros da Globo foram extraídas as características da editora ao longo de aproximadamente vinte anos, isto é, de 1928 a 1948. Esse livro, no entanto, abrange um período que vai de 1925 a 1977. O maior número de registros será localizado nos anos selecionados para esta pesquisa.

Finalmente, é importante salientar que foi comovente trabalhar com o Livro de Registros do Globo e ver registrada, na ponta do lápis ou da caneta, a concretização dos anseios de homens que não mediram esforços para valorizar o livro no Brasil.

1. CAPITALISMO E INDÚSTRIA CULTURAL

1.1 A indústria cultural e o processo de industrialização no Brasil

A indústria cultural, expressão criada por Theodor Adorno e Max Horkheimer, é fenômeno típico do capitalismo do século XX em sua fase monopolista. A tecnologia avançada e a necessidade crescente de informações e de bens culturais permitem que o modo de produção capitalista se aproprie dos modos de informar e de fazer cultura, para transformá-los em mercadorias em envolvem, em alguns casos, alta tecnologia.

Carlos Eduardo Lins da Silva destaca a importância de se estudar e interpretar o passado da indústria cultural no Brasil, afirmando que se trata de um campo quase virgem de pesquisa, lembrando que a indústria cultural é, ela mesma, um meio de produção e deve ser estudada como tal. A produção da cultura industrializada, contudo, aparece com a própria industrialização do século XIX, ainda conseqüência da etapa liberal do capitalismo. A industrialização que permite a produção de bens culturais de consumo é a da fase monopolista do capitalismo, que visa aumentar o consumo de bens simbólicos através da propaganda massiva e da ampliação dos meios de comunicação de massa. Assim, a eletrificação dos centros urbanos e do mundo rural, bem como a construção de estradas de rodagem e de ferrovias são fatores de unificação necessários para que se estabeleça uma rede de consumo dos produtos industrializados.

A indústria de bens culturais aparece no Brasil com a própria industrialização. No final do século XIX, circunstâncias históricas permitiram o aparecimento das condições para o desenvolvimento do processo de industrialização que se dá no século XX. Sabe-se que a abolição da mão-de-obra escrava e o assentamento do trabalho assalariado, a imigração européia para o sul do país, a construção de ferrovias e melhoria dos portos, a dinamização do setor de mercado interno e a concentração de renda na região centro-sul formam o ponto de partida para o desenvolvimento desse processo de industrialização.

Como é sabido, depois da Primeira Guerra, o Brasil passa por um processo de substituição de importações que se estende pelas décadas de 1930 a 1950. O modelo somente entra em colapso com a nova realidade criada pela Segunda Guerra Mundial. A substituição de importações desenvolve uma indústria voltada para a produção de alimentos, vestuário, utensílios domésticos, equipamentos simples e bebidas, quando são atendidas as necessidades mais imediatas da população.

Nesse período enfocado, a cultura também começa a ser produzida industrialmente. É o momento das grandes editoras no eixo Rio – São Paulo. Afirma Nelson Werneck Sodré:

Desde que surgiram aqui as primeiras oficinas gráficas, claro que começaram a ser produzidos livros. A precariedade do parque gráfico, na fase artesanal da imprensa, era tamanha, entretanto, que o livro, na maior parte, era impresso no exterior, particularmente, em Portugal. O desenvolvimento do parque gráfico brasileiro data da fase em que crescem e se alastram as relações capitalistas; assim, a atividade editorial, em termos nacionais, tem início após a revolução de 1930.

Para se pensar a indústria de livros não se pode esquecer que ela tem a sua especificidade, surgindo no Brasil no Brasil num contexto diferente daquele das nações que inventaram a produção de livros em série.

1.2 A produção industrial de livros

1.3 A produção de livros no Brasil: breve histórico

2. O RIO GRANDE DO SUL NAS DÉCADAS de 1920 e 1930

2.1 Industrialização e ensino no Rio Grande do Sul

2.2 Rua da Praia: a sala de visita de uma capital

2.3 A produção intelectual no Rio Grande do Sul

3 A EDITORA GLOBO DE PORTO ALEGRE

3.1 Os primórdios da Globo

3.2 Em busca do mercado nacional

3.3 Consolidação empresarial

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2 Respostas para “Editora Globo: uma aventura editorial nos anos 30 e 40

  1. O acervo e de suma importância

    21/11/2015 at 23:35

    Olá gostaria de saber se vocês tem algum artigo ou entrevista discursos de Carlota Pereira de Queiroz pois estou com dificuldades para encontrar para fazer um projeto de pesquisa para a faculdade . Agradeço desde já

     
    • 22/11/2015 at 0:29

      Oi Adriana, tu já pesquisaste no DELPHOS da PUCRS. Sugiro a Filatélica Zeppelin, caso tenha interesse pela compra das revistas.

       

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